POR UM RECOMEÇO

Publicado em 22 . 05 . 2013

Por Pati Cuozzo



“Tu gostaria de produzir um desfile no presídio feminino Madre Pelletier?”
 

Não lembro qual, exatamente, foi minha primeira reação ao ouvir essa pergunta, mas posso garantir que foi uma mistura de “nossa, que afudê” com “ai, que responsabilidade”. No entanto, movida pela curiosidade e por acreditar que a moda tem o poder de transformar vidas, topei o desafio!

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No meu primeiro encontro com a direção e organizadoras (e primeira experiência em um presidio!), conversamos a respeito da campanha Pelo Direito de Recomeçar e todo o mote que ela teria. Durante a conversa, enquanto elas contavam um pouco sobre os trabalhos feitos pelas apenadas lá dentro, me deu um estalo: por que não um desfile de materiais alternativos? Claro que, apesar de muito entusiasmadas, as chefes ficaram um pouco assustadas nesse primeiro momento. “Como que essa guria vai fazer isso?”, devem ter pensado…

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ACESSÓRIOS CRIADOS COM COMPONENTES DE DIJUNTORES

Bolei ideias e criei croquis com os materiais que são utilizados pelas presas em suas oficinas. Num processo que durou pouco menos de um mês, disquetes, imãs de geladeira, componentes eletrônicos, saquinhos de fermento e tempero, artesanato, retalhos de tecidos, garrafas PET’s, caixinhas de leite e aventais hospitalares foram transformados em vestidos.

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Se durante a apresentação do conceito do desfile para as detentas o ânimo entre elas não foi dos melhores – “eu que não vou usar essa roupa feia”, diziam -, com o processo da montagem das peças foi melhorando e, entre insights e trocas de ideias, fomos construindo as peças a muitas mãos. A cada pitaco dado em relação às peças, sentia aquela pontinha de alegria em ver que elas estavam realmente se engajando e criando, sonhando e imaginando além daquela realidade momentânea.

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No dia do evento, a movimentação era tal e qual um evento de moda “daqui do lado de fora” – com direito a camarim, cabeleireiro e maquiadora. Esse foi, aliás, um dos momentos mais emocionantes, afinal de contas, esse ritual feminino é muitas (e várias!) vezes esquecido lá dentro. Obrigada, Cubo, pelo trabalho de vocês. Mais uma vez, com muita atitude e profissionalismo, mostraram ao que vieram.

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EQUIPE CUBO

Não vou negar que durante alguns breves momentos, durante o projeto, cheguei a pensar “ih, o que que eu fui inventar…”, mas ao ver a alegria e realização das apenadas na passarela, desfilando seu rostos iluminados no tapete vermelho, me senti completamente em êxtase, com aquela sensação de dever cumprido e de ver que, parafraseando Amanda Carvalho, “moda vai além de um guardarroupa”.

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Experiência de trabalho. Experiência de vida!

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